Quantos livros você largou na juventude simplesmente porque não estava com tempo, com o espírito e a paciência, com o clima necessário para cruzar a linha final? E eram criações ruins? Talvez não. Vai ver não era o momento certo. E quem vai dizer que, no futuro – ou um dia desses, na próxima década, sei lá – você não vai esbarrar com o clássico na prateleira de uma biblioteca pública e lembrar com carinho do dia em que tentou encarar a personagem e o enredo, porém, por vários motivos – que agora nem têm mais importância – você não o fez, não foi até o fim. Certos amores também são assim, eu acho.
O mal do século XXI
É o mal de alzheimer que aflora nessa gente:
Esquece que falou.
Esquece que sentiu.
Esqueceu que amou.
Esquece que existiu.
É por isso que eu quero te agradecer: obrigada por me amar. Obrigada por estar ao meu lado quando eu mais preciso, quando me perco, quando não sei quem sou, quando mergulho e não encontro o caminho de volta. Obrigada por me amar nos meus dias ruins, quando estou assustada ou agressiva, chateada ou morna. Obrigada por me amar mesmo sendo mandona, mimada e brava. Obrigada por me amar quando não sei o que fazer, quando não consigo dizer ao certo o que preciso, quando o que aparece é só o meu avesso. Obrigada por amar minhas fraquezas, angústias e asperezas. Obrigada por amar minha sujeira, meu lixo interno, meu lado azedo e estragado. Obrigada por amar meu jeito muitas vezes infantil. Obrigada por amar meus defeitos, que não são poucos. Obrigada por amar minha forma desastrada de ser. Obrigada por me amar quando falo sem pensar, quando o filtro vai embora, quando surto, enlouqueço, grito ou vomito frases feias. Obrigada por me amar quando eu erro. Obrigada por me amar quando eu não sou tão legal. Obrigada por me amar quando o amor anda na corda bamba. Obrigada por me amar quando eu acabo esquecendo de gostar de mim. Obrigada por amar o que escolhi ser. Obrigada por amar quem eu sou e não quem você gostaria que eu fosse. Isso, sim, é amor.